café filosófico

Novo módulo do Café Filosófico CPFL discute os dilemas da saúde mental na contemporaneidade

Série de encontros propõe refletir sobre os desafios da subjetividade em tempos de medicalização, inteligência artificial e transformações sociais 

 Abril, 2026 – O novo módulo do Café Filosófico CPFL estreia em 2 de abril, às 19h, dedicado a um dos temas mais urgentes do nosso tempo: responsabilidade e escuta na psicanálise contemporânea. Com curadoria do psicanalista e psicólogo Pedro de Santi, a série propõe uma reflexão sobre os modos como a subjetividade vem sendo atravessada por transformações sociais, tecnológicas e culturais, e quais são os desafios clínicos e éticos que emergem desse cenário. 

Em um contexto em que nunca se falou tanto sobre saúde mental, o módulo parte de uma constatação inquietante: ao mesmo tempo em que cresce a atenção ao tema, ampliam-se também os diagnósticos, a medicalização e, paradoxalmente, as formas de sofrimento. Questões como o aumento da ansiedade entre jovens, o impacto da inteligência artificial nas relações humanas, as mudanças nas discussões sobre gênero e raça e até as tensões em torno da democracia atravessam o debate proposto pela série, que também coloca em perspectiva o papel da psicanálise diante dessas transformações e seu compromisso ético com a constituição da subjetividade. 

 A abertura do módulo acontece com a palestra “Riscos atuais à subjetividade e a busca por bem viver”, conduzida pelo próprio curador. No encontro, ele propõe discutir a atualidade da psicanálise a partir de uma ética do bem viver, diante de um mundo marcado por exigências constantes de performance e por um crescente enfraquecimento das mediações sociais. Segundo o psicanalista, esse cenário tem produzido novas formas de sofrimento e novas maneiras de evitá-lo, nem sempre produtivas. “Vivemos um tempo em que o imperativo de desempenho convive com uma fragilidade crescente das redes de amparo. Isso nos lança a um desamparo que muitas vezes é rapidamente traduzido em diagnósticos e medicalização, como forma de aliviar o sofrimento sem necessariamente enfrentá-lo em sua dimensão subjetiva”, afirma Pedro de Santi. 

 Ele destaca, ainda, que sob o signo da doença e da intervenção medicamentosa, corre-se o risco de esvaziar a implicação do sujeito em sua própria vida. “Quando atribuímos nossas limitações apenas à doença ou nossos êxitos exclusivamente à medicação, perdemos algo fundamental: a possibilidade de nos reconhecermos como agentes da nossa própria história. A psicanálise, nesse sentido, resgata uma ética que valoriza o desejo, a responsabilidade e a construção singular de um bem viver,” completa. 

 Ao longo dos cinco encontros, o módulo amplia essa discussão ao reunir diferentes especialistas que investigam as interseções entre clínica, sociedade e política. No dia 9 de abril, o psicanalista e psiquiatra Marcelo Veras aborda as relações entre psicanálise e psiquiatria na era digital, discutindo os impactos da inteligência artificial, da psiquiatria computacional e da chamada “fenotipagem digital” sobre a noção de subjetividade e diagnóstico. Na semana seguinte, em 16 de abril, a psicanalista Priscilla Santos de Souza propõe refletir sobre como o racismo, enquanto estrutura histórica da sociedade brasileira, atravessa o campo da saúde e interpela a teoria e a prática psicanalítica. 

 Já no dia 23 de abril, a psicóloga Miriam Debieux Rosa discute as relações entre psicanálise e democracia, explorando como a clínica pode contribuir para compreender os impasses de uma sociedade marcada por imaginários distópicos e pela fragilização do laço social. Encerrando o módulo, em 30 de abril, a psicanalista Mara Caffé analisa as transformações contemporâneas nas questões de gênero, situando a chamada “explosão do gênero” em um processo histórico mais amplo, marcado tanto por avanços quanto por reações conservadoras.

Programação completa

02/04, quinta, às 19h | pedro de santi| riscos atuais à subjetividade e a busca por bem-viver
09/04, quinta, às 19h | marcelo veras| psicanálise e psiquiatria hoje: subjetividade, técnica e bem-estar na era digital
16/04, quinta, às 19h | priscilla santos de souza| a clínica no brasil interrogada pela racialidade
23/04, quinta, às 19h | miriam debieux rosa| psicanálise e democracia: a sustentação do laço social em contraposição às distopias
30/04, quinta, às 19h | mara caffé| as transformações do gênero na contemporaneidade